Nature

Edgardo Latrubesse, pesquisador da Universidade do Texas, especialista em geomorfologia, ramo da geografia que estuda as formas da superfície, em suma, relevo, paisagens e seus aspectos. Estudou o Amazonas, suas inundações sazonais e o deslocamento dos sedimentos que terminam desaguando no Atlântico, publicando os resultados na revista Nature. Sobre os sedimentos, avisa que seu transporte através dos rios geram vida, quer dizer, a lama que conhecemos produz vida e ecossistema sendo parte integrante do rio, formado por pedaços de várzea ou ilhas por ação da erosão. Isto ajuda na região dos trópicos a manter gama imensa de ambientes que se regeneram ciclicamente, contribuindo a criação e manutenção da biodiversidade. Pelos sedimentos, avisa que grandes barragens fazem sua retenção alterando o processo regenerativo, ao lado da queda da velocidade e fluxo fluvial observado nas hoje existentes. O Yangtzê com Três Gargantas, retém mais de 75% dos sedimentos em processo cumulativo, já que apresenta afluentes. O rio Paraná a retenção vista é de 100%, quer dizer, a variação de retenção dos sedimentos está entre 70/90% e nas hidrelétricas amazônicas, informa, não deverá ser diferente.
Talvez o caso mais antigo de grandes barragens é o da represa de Assuã no Egito, que por condições climáticas peculiares, quente e seco, serve de exemplo pelos impactos sociais, ambientais e econômicos produzidos. Lá a erosão a modificação do fluxo fluvial e o vento, removendo solo e rochas, impactam principalmente na foz. Na região do delta do Nilo, vilas desaparecem e a linha da costa recua até 50 metros/ano. Antes da barragem que trouxe o controle das cheias e irrigação, o Nilo liberava no Mediterrâneo 20 milhões/toneladas de sedimentos que em consequência, formaram dois grandes deltas se estendendo 50 kms no mar. Por conta da retenção do sedimento na represa, foram construídas estruturas na linha da costa visando limitar sua retração, o que não impediu que continuasse profundamente, aumentando o impacto das ondas por intensidade crescente. Além desta questão da foz, 11% da água do lago da barragem se perde por evaporação, o empobrecimento da água em nutrientes barragem abaixo, obrigou o uso de fertilizantes em quantidades crescentes. A escassez de areia rio abaixo, determinou que a atividade de olaria buscasse nos campos agrícolas sua matéria prima ao exercício da atividade pujante na região. O fluxo fluvial mais lento, ocasionou crescimento de fitoplâncton obrigando o tratamento da água para consumo humano por danos à saúde. Por fim, voltando a foz, com menos água, o sal Mediterrâneo avança rio a dentro, tornando o solo e as águas subterrâneas salobras, ocasionando potabilidade inadequada ou impropriedade ao consumo e irrigação.
Evidente que não se deve comparar de forma simplista o Nilo ao Amazonas, pois as diferenças começam pelo clima, no vale do Nilo quente e seco e seu entorno semi deserto. Mas podemos observar que as represas no Egito e Etiópia permitiram irrigar áreas imensas. Podemos perfeitamente tirar lições e compará-las a região do Tigre e Eufrates de clima semelhante, ou, no vale do rio Jordão. Nestas regiões, a medida que o tempo avança, a potabilidade da água piora por conta da salinidade e da proliferação de algas pelo agravamento das condições ambientais. Quanto ao Amazonas, deveria ser comparado com florestas da Colômbia e Vietnam, onde grandes quantidades do agente laranja foram usadas. Talvez melhor rigor no exame de impacto em Belo Monte daria visão abrangente a sua existência e benefícios, não só eletricidade, mas reais modificações na vida do homem amazônico que certamente sobreviverá ao efeito estufa.

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