Comportamento e vigilância

No século XIX fidalgos resolviam diferenças com o duelo como última solução. Ao amanhecer, diante testemunhas, iam às vias de fato. De costas um para o outro, com armas em punho, conhecedores das regras, dez passos em frente, meia volta e tudo resolvido. Deste modo procediam, até que certa feita, no nono passo, um deles vira-se e espera pelo décimo passo do oponente, que assim procedendo, recebe o tiro mortal. A discussão pelo rompimento das normas não prosperou, em sendo respeitado o tiro pelas costas, ao se virar no nono passo e esperar o oponente de frente, evitou a quebra do acordo. Prevaleceu a ideia do delito leve, não um crime, decisivo ao sucesso de um e fracasso do outro, sem o explícito rompimento das regras. Neste contexto, aparecem o comportamento e a vigilância preservando preceitos de convivência de época, evitando a burla.
Dentro da premissa do comportamento e vigilância, a escritora Shoshana Zuboff descreveu no periódico alemão ‘Frankfurter Allgemeine’ a existência de um novo modo de atuação praticado pelo Google, chamado de capitalismo de vigilância. Considera o controle governamental irrelevante se comparado ao do gigante da internet. Tal sistema econômico, unilateral segundo ela, visa benefícios por conta da modificação comportamental pela vigilância. Relata que quando catálogos de publicidade são enviados, baseiam-se no uso de dados que visam a modificação do comportamento. Quer dizer, o sucesso do Google decorre de sua capacidade em predizer o futuro dos costumes, pela análise dos dados obtidos nas buscas. Tal conceito em linha com Tom Wilson da AllState, ao dizer que a tecnologia permite à seguradoras venderem dados de comportamento do consumidor, usados em restaurantes e vendas de imóveis, por exemplo. Avisa ser possível manipular o mercado de vontades aumentando preços e concedendo descontos em tempo real.
Novamente a luta das civilizações, no passado, via estados, buscando controlar costumes e populações pela vigilância e sua modificação favorável à seus interesses. Hoje, além dos estados, surgem as corporações tentando modificar costumes também à seus interesses. Evidencia nova luta pelo poder entre mega empresas e estados, como a Apple e o FBI, com maior volume no tratado de livre comércio entre UE e EEUU, colocando em jogo o poder do Estado versus Corporações.

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