Dualidade e proximidade

Quando da interpretação psicanalítica por Freud a respeito da origem egípcia e monoteísta de Moisés, apesar do espanto e indignação por parte de religiosos judeus numa época bastante conturbada, talvez fosse oportuno considerarmos a partir desta ideia, dois conceitos que impactaram bastante a sociedade judaica e posteriormente o Ocidente como um todo; trata-se da dualidade e proximidade.
Ao consideramos como Freud a origem egípcia de Moisés, vemos que sua influência principal entre judeus cativos foi na condução à terra prometida e a entrega dos mandamentos ao povo. A dualidade neste caso nos apresenta pelo fato que Moisés somente avista a terra prometida, deixando a José a liderança judaica na tomada de posse, isto é, Moisés conduz mas não entra na terra prometida, garantindo liberdade plena, aparecendo aqui a dualidade. Já a proximidade, envolve dois pontos de vista bem distintos, isto é, para os judeus o próximo é quem está mais próximo, no caso, o próximo em primeiro lugar seriam os pais, depois os irmãos, cunhados, filhos, vizinhos e etc. Para os cristãos, o próximo está na figura do outro, ou do irmão por ser filho do mesmo Deus (pai) e não no parentesco familiar. A ideia judaica de próximo pode ser compreendida nos mandamentos, ou lei mosaica, especificamente entre outros, o “Não cobiçar a mulher do próximo” ou a mulher de seu pai (incesto) e de seu irmão (cunhada).
Tais conceitos podem aparecer em outros episódios bíblicos como em João Batista que perde a cabeça ao condenar Herodes por se casar com a cunhada, rompendo a lei mosaica de “Não cobiçar a mulher do próximo” dentro da ideia judaica de próximo. A dualidade em João Batista aparece por ser o anunciador do Messias, ou aquele que nos salvaria, e não ele (João) o salvador, seguindo aí, tal qual Moisés, anunciar ou conduzir o povo a libertação deixando a outro a entrada na terra prometida, no caso de João Batista, o Cristo.
Outra passagem bíblica bastante discutida mas que mostra com força a dualidade e proximidade foi Onan. Segundo filho de uma família, após a morte de seu irmão casado foi dado a ele casar-se com a cunhada. Como diz a bíblia, Onan interrompia o coito ejaculando sobre a terra, dando margem a vários conceitos de masturbação. Convenhamos que à época, coito interrompido, não significava um pensamento elaborado como no século XXI, isto é, praticar a conjunção carnal e interrompê-la ejaculando sobre a terra; coito interrompido aqui, se Dr Freud entre nós estivesse, talvez dissesse, não praticar o ato sexual, e não elaborá-lo desta forma complexa, inclusive com conhecimentos sobre a fertilidade e fisiologia feminina. O mais adequado talvez fosse não praticar ato sexual com a cunhada, e com isto, não romper a lei mosiaica de “não cobiçar a mulher do próximo”. A idéia de dualidade aparece no fato de, em sendo o segundo filho, ter se casado com a cunhada e não rompendo a lei mosaica, Deus o levou para junto de si, isto é, fiel a lei até a morte.
Verdadeira ou não, a interpretação freudiana sobre as origens de Moisés, com sua repercussão a cerca da dualidade e proximidade, estão fortemente incrustadas na sociedade ocidental e toda a estrutura de pensamento que a envolve, inclusive, atingindo não só raízes cristãs, mas o próprio judaísmo e islamismo. Decerto a apreciação destes fatos nos ajudará entender o desenvolvimento das culturas envolvidas em tais episódios.

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