Moisés e o monoteísmo

Como diz Peter Gay, Freud “considera seu livro Moisés e o monoteísmo como um desafio, escrevera-o como um desafio e o publicara como um desafio”. As partes mais imediatamente escandalosas de Moisés e o monoteísmo eram as reflexões de Freud sobre a identidade de Moisés. “Privar um povo do homem de quem ele se orgulha”, diz Freud na página de abertura do livro, “não é algo que se faça com prazer ou sem cuidado, menos ainda sendo eu próprio um membro desse povo”. Para provar a tese de que Moisés era um egípcio, e não um judeu -se é que de fato ele provou, ou chegou perto disso-, Freud levantou algumas possibilidades. O nome Moisés, asseverou, não era judeu, como os estudiosos sabiam há muito tempo, mas egípcio. Além disso, Freud disse, “a história bíblica das origens de Moisés não faz sentido do ponto de vista psicanalítico”. Naquelas fantasias mais comuns, que compõem o que Freud chamava de “romance familiar”, a criança acredita, mesmo que viva em uma família humilde, que seus pais verdadeiros são prósperos aristocratas, talvez mesmo um rei e uma rainha, dos quais ela foi separada precocemente. A história bíblica sobre Moisés sendo resgatado por uma princesa egípcia inverte a direção habitual do romance familiar: nela, a criança não vai da riqueza para a pobreza, mas da pobreza para a riqueza. Este fato desperta o interesse analítico de Freud: “Em todas as instâncias onde foi possível verificar”, ele diz, “a primeira família, aquela da qual a criança veio, era a família inventada, e a segunda, na qual ela foi acolhida e cresceu, era a família verdadeira”. Na história de Moisés, a primeira família é a família pobre dos judeus, e a segunda família é a egípcia. Por isso, Freud afirma que Moisés deve ter pertencido à classe alta egípcia, e de alguma forma acabou sendo tomado ou adotado por judeus empobrecidos.
Existe então a questão das origens do monoteísmo. Com base nas suas pesquisas antropológicas e arqueológicas, Freud especula que o monoteísmo não foi uma invenção judia, mas egípcia. Foi Amenófis IV, não Moisés ou outro judeu, quem se converteu ao culto monoteísta de Áton e passou a ordenar que só se venerasse um deus. Amenófis, segundo Freud, mudou seu nome para Akhenaton e tentou impor a sua severa religião aos politeístas egípcios. Moisés era originalmente um dos associados mais próximos de Akhenaton, mas como este morreu jovem, os egípcios rejeitaram o monoteísmo e Moisés se voltou então para os judeus, que estavam no Egito há poucas gerações. Ele liderou os judeus na travessia para fora do Egito, desafiando o faraó, e no deserto lhes deu leis, apresentou-lhes a circuncisão, que era um costume egípcio, e os convenceu a adorarem Áton.
Os judeus acabaram repudiando Moisés e Áton: a adoração de um único deus era algo frio e abstrato demais para eles. Enfurecidos por causa de tudo a que ele lhes pedira para renunciar, eles mataram Moisés e então retornaram às antigas formas de politeísmo. Mas a memória de Moisés e de sua religião persistiu. Os judeus sentiram remorso pelo que tinham feito, e por causa desse remorso passaram a exaltar a memória de Moisés -aconteceu então o que Freud chamou de uma “formação reativa”. Lentamente, um deus tribal midianita perdeu suas características violentas, até ficar praticamente idêntico ao velho deus de Moisés, Áton, e assim, se tornou o precursor de Javé. O reprimido retornou – na forma de monoteísmo- e o Moisés assassinado se tornou o grande homem do judaísmo.

Mark Edmundson em ‘A Morte de Freud’ (191/192)

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