O rosto da modernidade

Baudelaire caracteriza do seguinte modo o rosto da modernidade, não negando o sinal de Caim na sua fronte: “A maior parte dos poetas que se ocuparam de assuntos verdadeiramente modernos contentou-se com os reconhecidos e oficiais – as nossas vitórias e o nosso heroísmo político. Mesmo assim, fazem-no de mau grado, só porque o governo lhes faz a encomenda e lhes paga os honorários. E no entanto há assuntos da vida privada que são muito mais heróicos. O espectáculo da vida mundana e das milhares de existências sem saída que habitam os subterrâneos de uma grande cidade -as dos criminosos e das mulheres amancebadas- a Gazette des Tribunaux e o Moniteur, mostram que só precisamos de abrir os olhos para descobrir o nosso próprio heroísmo.” Aqui surge o apache, o delinquente urbano, na imagem do herói, nele convergem os caracteres que Bounoure assinala na solidão de Baudelaire – “um noli me tangere, um enclausuramento do indivíduo na sua diferença.” O apache rejeita as virtudes e as leis. Denuncia de uma vez por todas o Contrat Social, e acha que todo o mundo o separa do burguês.

 

Walter Benjamim em ‘A modernidade’

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