Política e religião

Talvez, salvo erro em juízo de valor, a principal diferença entre o espírito ateu ou materialista e o espírito religioso, esteja no objetivo materialista de um e na busca por algo superior de outro, no caso, Deus. O foco do materialismo é o ego como figura central, isto é o homem, ao lado do adquirir mais valia individual, entendendo-se aqui, material e pessoal. A questão fundamental entre um e outro é que ao longo da vida a busca por Deus não se esgota em si, pois em toda a história da civilização, não tivemos relato de termos encontrado o fim do caminho nesta questão, enquanto no caso materialista ou individual, sempre deparamos com seu esgotamento.
Religiões, detentoras ou não da verdade, bem ou mal intencionadas, sempre exibem um discurso ou ideia de que todos estão a procura de um ser universal superior, direcionando o pensamento dos fieis ao encontro futuro em sua busca pelo superior. Estados ou governos sempre estabelecem como principal relação a matéria ou o bem estar material, e como sabemos, esta é perecível levando ao esgotamento. Os seus membros esperam a qualquer momento que a ideia fundamental ou de matéria, encontrará um fim, e daí, a necessidade em mudar seu enfoque pois aquilo que temporariamente exibem, se esgota; talvez seja esta a principal diferença entre a religião e o estado, isto é, na forma em encontrar a felicidade e o bem estar. Com um ser superior até aqui inalcançável, a religião parece inesgotável no princípio, ficando seu discurso mutável com o tempo. Não se trata aqui em considerar se o estado atinge ou não o bem estar do povo ou se a religião atinge ou não a redenção dos crentes ou o contato com o divino.
Haveremos de concordar que a intensidade das relações entre religião, fé e estado, determinará o equilibrio da sociedade em questão, entenda-se como estado, suas funções, pensamentos ou ideologias, englobando ideologias ou dogmas como o ‘modus operandi’ ou instrumentalização para o fim. Tudo na verdade pode ser resumido como a forma com que cada um defenda aquilo que considera verdade, ou o melhor meio em atingir o bem comum, ou o progresso coletivo.
Tudo isto é dito, pois o Egito país de religião predominantemente muçulmana e em fase de afirmação democrática, nos apresenta dentre as várias correntes de pensamento, Yasser Burhami, ou o lider da Sociedade de Chamamento Salafista (SCS) com forte aceitação social nas recentes eleições e conhecida por seu ultraconservadorismo, conseguindo 34 cadeiras no parlamento que redigirá a nova constituição e declarando o seguinte: “Queremos uma democracia, mas uma que seja condicionada pelas leis de Deus. Governar sem as leis de Deus é próprio dos infiéis”, disse. Isto despertou certa desconfiança em relação a dose ou intensidade nas relações entre religião, fé e estado. Na verdade, na formação da nova constituição deste país do norte africano teremos que considerar haverem 78 lugares na Assembléia para a Aliança Democrática da Irmandade Muçulmana. O que se espera, é que consequente a democracia como principal responsável pela organização e liberação de correntes de pensamento diferentes da oficial, a batalha entre elas seja travada no campo das ideias obedecendo a vontade da maioria pelo voto livre e respeitando o direito da minoria. Sabemos que a democracia não é só a vontade da maioria ou a ditadura do voto majoritário, mas o direito da minoria ter um papel de influência, em menor grau é verdade, mas também influir, visando o máximo de abrangência da vontade de todos. Eis a questão.

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