Sobre a anomia ou ausência do estado

“ (…) Sentia que, no país de O Coração das Trevas (o romance de Joseph Conrad) o terror da guerra ia crescendo, sobretudo, por causa dos tiroteios que surgiam por ali, das ameaças de ir preso, de sovas e de morte, que geravam um clima cansativo de incerteza, de imprevisibilidade e de falta de informação. Tudo mudava, rapidamente, para pior, em qualquer lugar e a qualquer hora. Não havia nenhuma autoridade, nenhuma força da ordem. O sistema colonial tinha desaparecido, a administração belga fugira para a Europa e, em seu  lugar, surgiu uma força cega e louca que, na maioria dos casos, se manifestava na presença de gendarmes (policiais) congoleses bêbados. Era possível constatar quão perigosa se torna a liberdade desprovida de hierarquia e de qualquer ordem, aproximando-se, assim da anarquia imune à ética e à lei. Numa situação destas, de imediato tomam a liderança forças agressivas do mal, manifestando-se na forma de baixezas, barbaridades e bestialidades. Foi assim no Congo dominado, naqueles tempos pelos gendarmes. O encontro com qualquer um deles podia ser uma experiência perigosa.

Ryszard Kapuscinski em Andanças com Heródoto

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