O Gargalo de Neumann

John Von Neumann, matemático, judeu húngaro, converso ao catolicismo e naturalizado americano, pertenceu a exuberante geração intelectual de Budapeste, cidade que produziu à época uma de suas mais férteis geração de cientistas, escritores e músicos, que de lá partiram tal qual partiam das cidades renascentistas italianas. Participou do Projeto Manhattan e na construção da bomba H, desenvolveu com outros cientistas simulações para computação hidrodinâmica no chamado computador digital de Von Neumann. Uma de suas descobertas foi o fato de grandes bombas serem mais devastadoras se lançadas acima do solo, por conta de uma maior onda de choque. Professor em Princeton, participou do projeto ENIAC o primeiro computador de larga escala ou Eletronic Numerical Integrator and Computer. Participou do desenvolvimento do EDVAC como consultor da Moore School ou Eletronic Discrete Variable Automatic Calculator. Morreu em 1956 de câncer aos 53 anos, por exposição radioativa em testes atômicos.
O projeto computacional talvez seja sua mais expressiva obra ao sugerir que as instruções fossem armazenadas na memória, até então lidas em cartões perfurados, tornando a execução e leitura de dados mais rápida. Seu modelo propõe um computador sequencial cujo processamento se faz passo a passo num comportamento determinístico, ou, pelos dados de entrada sempre se obtém a mesma resposta. A solução de problemas complexos por números aleatórios estudada por ele, deixava os computadores mais lentos. Fato é que a maioria dos equipamentos da era moderna, seguem o modelo proposto por Von Neumann. No seu artigo First Draft of Report, propõe uma máquina de estrutura simples, fixa, de controle programado que executa qualquer comando sem necessidade de alterar o hardware, sendo este, um dos primeiros documentos descrevendo a disposição interna e princípios de funcionamento dos computadores atuais. O modelo proposto criava novas possibilidades à computação, até então restrita a determinada tarefa. A proposta de Neumann deixou um problema entre a CPU e a memória, pela limitação na troca de dados sendo chamado de gargalo de Neumann, coisa que permaneceu até nossos dias, com troca de dados entre o processador e a memória de capacidade menor que a capacidade de trabalho da CPU. O resultado é limitação da velocidade de processamento, forçando espera da CPU na transferência de dados oriundos da memória e aumentando a cada geração de CPU.
O gargalo de Neumann trás nosso matemático à vida colocando-o no olho do furacão neste inicio de ano pelas vulnerabilidades Spectre e Meltdown. Avisada a algum tempo da cansada discussão entre segurança de computadores e velocidade, a Intel aceitou o que já bem conhecia, inclusive com vendas de ações por parte do CEO da companhia. Pelo gargalo, ataques podem ser feitos acessando o conteúdo da memória de computadores, celulares e servidores. O Meltdown parece até aqui limitado aos computadores da companhia, quebrando o isolamento entre aplicações do usuário e do sistema operacional, cuja correção comprometeria a velocidade em até 30%. Já o Spectre explora a capacidade de execução especulativa dos processadores, cuja solução viria na próxima geração de processadores com novo redesenho. O resultado desta questão mostra que na guerra entre performance e capacidade de armazenamento dos processadores, perdeu a segurança, isto, no mundo inteiro. Imaginamos que compras pela internet envolvendo bilhões de dólares decorre pela rapidez de resposta, pois o contrário, o cliente desiste e a companhia perde. Grandes Players do mercado de nuvem como Amazon, Microsoft, Google, correm risco de perdas em consequência de velocidade e segurança comprometidas. Tudo está sob ameaça, de senhas a dados ou chaves de criptografia. Von Neumann vive.

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O dia seguinte

Um debate envolvendo a sociedade colombiana e tendo como protagonistas o judiciário e o executivo, por conta do acordo de paz com as FARC, afetou-a globalmente. Um decreto presidencial relacionado a integração econômica e social da guerrilha, deixou em aberto a possível utilização de parte do fundo do espólio das FARC para financiar campanhas políticas do partido daí nascente. Fato é que o inventário dos bens guerrilheiros, quer dizer, confiscados e declarados, seriam utilizados na reparação de vítimas e talvez financiar o centro de Pensamento e Educação Política do partido nascente, abrindo aí, espaço ao financiamento eleitoral. A oposição fala em iniciar a vida política com 3,5 milhões de dólares ou o maior negócio de lavagem de dinheiro conhecido, isto, pela ótica oposicionista. A questão se complica ainda mais quando se fala que durante a guerra, a guerrilha possuía 8 mil combatentes custando anualmente 67 milhões de dólares.
Falar em patrimônio das FARC é patinar em terra de ninguém, pois nem eles devem saber ao certo quanto acumularam com a guerra. Os números decorrem de informações de confiscos e servem para dar ordem de grandeza ao montante e não a valores absolutos. Estima-se em 30 milhões de dólares em golpes ou miudezas apreendidas. Um confisco de 3389 propriedades vale U$ 3 milhões, propriedades urbanas, rurais e automóveis além de empresas e estabelecimentos comerciais ainda não devidamente cadastrados. Em 2009 foram interceptados dados da parte mais rica da guerrilha no valor de 20 milhões de dólares e para fins de confisco e congelados existem imóveis na zona urbana no valor de 9,4 milhões de dólares. Há Propriedades rurais já declaradas valendo 6 milhões de euros. Só a mineração de Coltan e Tungstênio mais exportação de 350 toneladas em três anos totalizam 5 milhões de dólares. Terras que foram recuperadas no valor de 8,3 milhões de dólares. Confisco de U$ 150 milhões em terras equivalem em tamanho o estado de Alagoas. Isto para se ter uma noção, pois os dados são defasados e não estão concluídos. No exterior citam como possuidores de ativos da guerrilha, Costa Rica, Equador, Espanha, EEUU, México, Panamá, Peru sem falar Cuba e Venezuela.
Evidente que importa saber quanto as FARC acumularam em patrimônio com a guerra. Lógico que o resultado impacta na reparação das vítimas e na inserção dos ex combatentes à vida civil, tentando amenizar sua ida ao crime ou ao gosto amargo da injustiça em ambos os lados. As armas silenciaram mas o seu legado está aí. Talvez discutir dinheiro ilícito usado em atividade que deveria primar pelo exemplo em lisura, ou, atividade política, suscita uma questão intrigante. A América Latina buscando desenvolvimento e por consequência capital financeiro, enfiou o pé na ilegalidade. Desde a pequena corrupção da esquina ao narcotráfico tutelado por armas contrabando e assalto em cima dos mais fracos e diante a conivência dos favorecidos. Interessante examinar se o resultado desta iniciativa na sociedade, nos últimos trinta anos principalmente, levou ao caminho do benefício social, se podemos falar em ganhos futuros, se compensa o preço que se paga.

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Mais que negócios

Artigo publicado na Bloomberg Businessweek fala da trajetória do magnata chinês da Hong Kong Nicarágua Desenvolvimento (HKND) da construção do canal da Nicarágua e um projeto em tornar-se mega empresário das telecomunicações. Xinwei é o nome da empresa de telecomunicações autorizada a funcionar no Cambodja e Nicarágua, sendo neste país, operada pelo nome de Cootel. Segundo a Bloomberg, por contratempos na Nicarágua levou quatro anos para arrancar e no Cambodja não dá sinais de grande empresa em operação.Na Nicarágua prestará serviço de telefonia móvel instalando mil postes para internet sem fio ou wifi. Sobre a tecnologia McWill, falam ser interessante para áreas rurais ou pequeno vale, enquanto nas cidades parece contraproducente. Outro fato da tecnologia usada nos postes é o uso de cabos sem protetor de ultravioleta, comum na China. Pela falta de proteção para UV, os cabos tornam-se quebradiços, ocasionando interrupções, vulnerabilidade a ventos e não funcionamento em determinados locais.
O caso chinês segundo a revista americana foi na Ucrânia, por conta de investigação em curso de tentativa em comprar uma participação na Motor Sich PJSC, maior fabricante de aviões e helicópteros, como a nossa Embraer. A acusação contra o homem é de um suposto conluio visando destruir a capacidade estratégica ucraniana de motores para aeronaves. A revista americana lista empresas envolvidas no acordo, incluindo a unidade do grupo Skyrizon. Um tribunal de Kiev congelou tais ações em setembro, sob o argumento que a compra eliminaria a capacidade interna de produção de motores a jato nacional levando para fora do país. Sobre o canal da Nicarágua, de junho de 2013 até hoje surge Monica Dehart, antropóloga de Puget Sound que estuda a presença chinesa na Nicarágua, chamado por nicaraguenses e chineses de ‘canal louco’. Em dezembro de 2014 foi inaugurado na região de Brito um projeto de logística, que na verdade não saiu do papel. O projeto de 50 bilhões de dólares aguarda negociações com camponeses na compra de terrenos, que por sinal não estão a venda, nenhuma estrada ou porto, parque de camping ou fábrica em construção. A parte o canal, o mercado de capitais deu um crack no chinês ao longo de 2015 no valor de 9,1 bilhões de dólares ou 89,2% de sua fortuna total. Filme que já asssistimos por aqui no caso do petróleo. Nas telecomunicações, a empresa que opera na Nicarágua, segundo especialistas, usa padrão chinês Mcwill sobre postes de iluminação urbana para instalação dos equipamentos. Parece vantagem pois utiliza infraestrutura instalada, evitando aluguel de terrenos e instalação de torres gigantescas e caras. A desvantagem é a exigência de curta distância aos equipamentos, aumentando os custos de instalação, manutenção, multiplicando riscos de eventos inesperados.
A história do canal da Nicarágua por conta de não aparecer na grande mídia é ofuscada pela ideia que nossos políticos procuram chineses para vender o Brasil, é coisa que importa na história recente latino americana. Fato é que a China exerce doce fantasia no inconsciente latino, mais que a Rússia, vide ala bolivariana. Bom lembrar não haver bom conhecimento de nossa parte sobre a cultura chinesa pós Nixon e da cultura Latina pelos chineses pós Carter. Talvez dizer, nós não os conhecemos e nem eles a nós, não conhecemos Marx e muito menos eles, quer dizer, pensamos que são marxistas enquanto pensam que somos capitalistas. O resultado são acontececimentos na Ucrânia, Nicarágua, Cambodja com as empresas chinesas e outros projetos na América Latina. Lembrar que no caso ucraniano, o tratamento chinês é colonialista, o mesmo acontecido na Nicarágua como se construir um canal lá fosse negócio já teria acontecido a muito tempo. Bom dizer que não é o fato da tecnologia em questão ser chinesa e nem ser de última geração, pois instalação em locais menos habitados e com menos exigência tecnológica, barateia custos finais estando aí vantagens, mas tem limitações. Por fim vale a pergunta se existiria analogia entre a suposta compra pela Boeing do que melhor temos em aviação e o caso ucraniano, ou, são meras elucubrações? Com a palavra o Meritíssimo e o Candidato.

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Voltando ao assunto

Especialistas avaliam ser difícil quantificar o volume do fluxo financeiro circulando de forma eletrônica, oriundo dos paraísos fiscais. Na tentativa em entender a questão, a Tax Justice Network avalia com dados de 2010, que a circulação livre de impostos estaria entre 21 e 32 trilhões de dólares num universo de 80 paraísos fiscais ou as chamadas jurisdições sigilosas. O papel principal dos offshore ou paraísos fiscais está centralizado nos negócios com instrumentos financeiros derivativos, ou, contratos a prazo fixado em relação a determinado ativo como o petróleo por exemplo, quer dizer, sua cotação de preço deriva de outro ativo, não sendo títulos ou ativos de empresas. Eis a parte mais importante do mercado global envolvendo um volume de 600 trilhões de dólares segundo o BIS. A opacidade destas operações está no sigilo e vantagens oferecidas pelo offshore.
Segundo o Financial Times em 2008 o governo americano resgatou 80 bilhões de dólares por conta da falência do Lehmman Brothers, por garantias dadas pelo conglomerado gigante de companhias de seguro AIG em derivativos de crédito. Importa relatar a não avaliação total do negócio porque estava escondido em subsidiárias no exterior. No caso dos derivativos envolvendo o petróleo, investigações do Senado americano avaliam que a especulação nos offshore responde por 30% do preço do óleo com tendência de crescimento. A referência de preço é dada eletronicamente no mercado futuro de Nova York e Londres, quer dizer, gerido por dois grandes grupos ligados a empresas financeiras como o Goldman Sachs, local de saída de grande parte dos contratos precificando a commoditie. Talvez aí ideias à compreensão da engenharia política do atual governo americano.
O mais adequado conceito de especulação financeira seria aberração da lei da oferta e procura em cima de manipulação matemática. Transforma o objeto de intermediação de compra e venda, dinheiro ou papéis de partes de uma empresa (ação) ou dívidas, em produto principal sem nada produzir aferindo ganhos nos dois lados. Em suma, no caso das dívidas um esforço comprador de seus papéis levam pela oferta e procura, valorização. Boatos de insegurança criam um efeito vendedor e seu valor cai, em sabendo disto nos dois casos ganha-se, sendo este o trabalho do especulador. Convenhamos que enquanto isso, este dinheiro deixa de alavancar pesquisa. Daí concluir que com mais lucratividade, menos pessoal, menos despesas e menos problemas, ganha-se muito mais. Especulação financeira, dinheiro como objeto de intermediação de negócio sobre dinheiro como produto, sem nada produzir e com melhor remuneração e lucro, cedo ou tarde levará o sistema à novas quebras, como levou em outras ocasiões. Foi assim é assim e continuará sendo assim.

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Saúde da terra

Seria bom lembrar que entre 1982 e 2010 foram escritos 108 livros negando a existência da mudança climática, sendo 90% revisto pelos respectivos pares. Esta questão do clima, nos remete a Svante Arrhenius químico sueco que desenvolveu a teoria da dissociação eletrolítica sobre compostos químicos em íons (partículas com cargas elétricas). Daí o grau de dissociação iônica aumentar com o grau de diluição (quantidade de partículas numa substância) de um composto. Concluiu que a velocidade das reações químicas aumenta com a temperatura proporcionalmente à concentração existente; por isso ganhou o Prêmio Nobel. Em cima destas ideias, em 1885 apresentou pela primeira vez na história humana um artigo descrevendo o aumento do dióxido de carbono na atmosfera, mais tarde o chamado efeito estufa, obviamente intensamente refutado por isso. O IPCC nos fala que a concentração de C02 dos últimos anos na atmosfera é a mais alta em 800 mil anos e o limite de 2ºC só será aceito quando as consequências sobre o homem forem irreparáveis. Hoje os custos estão em bilhões de dólares/ano com aumento evidente de impostos.
Ao lado da questão financeira, necessita que acrescentemos as consequências da vida moderna sobre a saúde e o envelhecimento populacional. Estudos em fase de andamento vão na direção da depressão e ansiedade. Artigo publicado no Journal of the American Association, avisa que desastres ambientais causam transtornos pós traumáticos em consequência ao stress vivido, aumentando a probabilidade de depressão e ansiedade. Variações de humor por conta do ambiente climático em intensidade tais como calor, seca, inundações ou furacões, por sua recorrência, já se fazem visíveis. Há ligação entre clima mais quente e níveis de maior impulsividade de comportamento ou mesmo violência. Nas regiões mais próximas ao Equador estas alterações parecem mais evidentes. Por fim, tensões regionais nos lugares mais quentes por recursos naturais como água ou alimento acabam no óbvio.
Tudo acima escrito foi obtido por pesquisa científica, homens e mulheres que dedicam a vida ao estudo, passando horas à fio fechados em laboratórios e depois de muitos ires e vires, via questionamentos e provas, apresentam conclusões, muitas delas de toda uma vida. Verdade é que a ciência como tudo tem sua escala de valores e os cientistas do vale do Silício, Europa, Rússia, Japão e China, submetidos à contratos draconianos, tem as descobertas remetidas à grupos de negócio. Sob esta ótica, a pesquisa tecnológica vale mais, aperfeiçoando celulares, trajetórias de mísseis por melhores precisões de alvos e etc. Os anos passaram desde que alguns poucos falaram em aumento da temperatura global, lá pelos idos de cinquenta. Imediatamente iniciou-se contrapartida, pois caso a ideia prosperasse, atrapalharia o progresso e deveria a qualquer preço ser barrada. Infelizmente a ciência estava correta pois a questão se espalhou pelo mundo e os fatos falam por si. Hoje não temos cientistas só no primeiro mundo, temos no Siri Lanka, Bengladesh, Brasil, Chile, América Central, Andes, Alpes ou Himalaia. Muitos dedicaram toda sua vida, muitos já morreram, inclusive brasileiros que mantiveram contato com venenos animais; se lembra de Augusto Ruschi ?

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O que não tem certeza

Desde ‘O Capital’ de Marx quando se falou abertamente sobre a luta de classes, ninguém após este acontecimento foi tão contundente no assunto como Warren Buffet ao afirmar: “Há uma guerra de classes e nós os ricos, a estamos vencendo.” Esta frase parece se fortalecer com a ascensão de Trump, nos mostrando que lá será bem vindo, aquele com gorda conta bancária como senha de aceitação e sucesso promissor no governo. Este fato mostra que, enquanto governo, ricos com pouca aptidão à vida política parecem mais eficientes nas sombras, conseguindo melhores vantagens, sem se exporem de forma explícita e arriscada diante sociedades basicamente divididas. A verdade é que ao observar que a luta de classes está sendo vencida pelos ricos, mesmo se estivesse sendo vencida pelos mais pobres, certamente concluiríamos que perde a sociedade como um todo pois a história não reserva bom lugar à quem perde.
Inseridos nos dizeres de Marx e Buffet, talvez fosse adequado lembrar dizeres de Zygmunt Bauman, um vivente na cortina de ferro e posteriormente no lado ocidental. Dizia que o modo como as coisas fluem atualmente, parece real que é muito rápido, não nos deixando esperança em sua ultrapassagem, ou, as coisas vão e vem com uma velocidade que, desatentos, muitas delas nem notaremos. Bauman falava em pulverização de tudo e sua maior vítima era a imagem do mundo, apesar do desespero pelo vácuo produzido em encontrar um terreno sólido sob os pés, nos lembra que a espinha dorsal do capitalismo é a hierarquia de classes. Sua obra principal a Modernidade Líquida, fala na sociedade de produtores que originou a de consumo, desqualificando a velha consciência de classes ou o espaço de solidariedade. Prevalece a incerteza em que o velho não serve mais e o novo nunca conclui seu nascimento, ou, morre o estado-nação sem definição de como será a nova sociedade global. O consumo, conclui, mira nossa capacidade em consumir, nos livrando por tal, de sermos completamente descartáveis. Tudo transforma em mercadoria, desde trabalhadores a nossa moral.
A moral da história apregoada por Bauman é a ausência de pessimismo, derrotismo ou desespero por conta de nos lançar na estagnação. Necessitamos consciência que o mito de crescimento ilimitado por conta de recursos finitos deve ser descartado. Talvez seja pertinente Hanna Arendt, em afirmar sobre a “responsabilidade de ninguém.” A culpa, segundo esta pensadora, é sempre de cunho individual e não haveria responsabilidade naquilo que não fizemos. Nos atribuir culpa parece solidário aos malfeitores, ficando a responsabilidade coletiva aos dilemas políticos. A responsabilidade da comunidade por seus membros a torna responsável pelo que é feito em seu nome. Daí conclui-se, segundo Hanna Arendt, que o fim da responsabilidade de ninguém é a responsabilidade incondicional no despertar coletivo.

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Vantagem competitiva

O artigo 63 do Tratado da UE proíbe seus membros de restrições ao movimento de capitais dentro e fora da União. Por sua vez, manifestações do G20 sobre a crise financeira corrente foi na direção da consolidação da desregulamentação e ausência de supervisão eficaz dos estados sobre a circulação monetária, aprofundando instabilidades vigentes. Em outra oportunidade, o G20 endossou o abandono da OCDE sobre a concorrência fiscal diretamente relacionada aos chamados paraísos fiscais, anulando o conceito oficial de que paraíso fiscal se caracterizaria pela baixa ou nenhuma tributação. Daí, o capital financeiro adquiriu desenvoltura na liberdade de circulação, na concorrência fiscal, ao lado da ausência de supervisão internacional dos mercados de capitais. Nos anos noventa, a União Europeia instituiu  o conceito que a União era “espaço financeiro europeu” livre de supervisão transnacional em operações bancárias, estimulando via capital, a concorrência entre os países devido esta liberalização. Por conta, territórios buscaram em frenesi atrair capital com impostos baixos ou ausentes. O resultado foi que a estabilidade da dívida pública europeia, ficou à mercê de bancos de investimentos em Wall Street; dito por quem conhece.
Por conta, os paraísos fiscais ficaram na linha de frente pela ausência de supervisão ao fluxo monetário entre os países, ou, empréstimos interbancários e investimentos no mercado acionário. O efeito colateral desta situação, parece consenso, levou à opacidade de parte dos mercados financeiros, com o tempo, se institucionalizou como vantagem competitiva nos tipos de operações e na identidade do proprietário do capital. O avanço tecnológico via plataformas digitais nas negociações de ações, de pagamentos e créditos, consolidou a vantagem das empresas transnacionais. Ao lado, ofereceram pouca ou nenhuma tributação ao capital financeiro, na perspectiva de negócio com consequente redução do custo fiscal. A concorrência estabelecida e regida por leis mínimas ou facilidades na ocultação do titular, sem importar a origem do dinheiro, institucionalizada por fundos Trust, fundações e etc é o elemento que consolida em definitivo o processo em questão. Supervisão bancária inexistente, controle público ausente além de liberdade bancária, associados à imagem de sofisticação e sucesso é a fórmula ideal a que se legalize dinheiro opaco.
Decerto facilidades dadas à livre circulação do capital financeiro visavam alavancar o desenvolvimento, fazendo-o chegar mais rapidamente aos necessitados. Talvez dentro deste conceito tenha se inserido o euro, com livre circulação no espaço europeu e pela desregulamentação, induziria o desenvolvimento aos países associados. As ideias foram atropeladas pelo salto tecnológico inovador, em que facilidades econômicas dadas ao capital turbinaram sua efetividade. George Soros, chama de ‘tragédia da Europa’ a criação do euro, pois dividiu a União em credores e devedores, sendo os devedores tratados como emergentes do terceiro mundo, substituindo o que deveria ser uma união de nações livremente associadas. A verdade se dirige à que a liberalização do capital financeiro trouxe cilada ao universo capitalista, transformando todos em reféns dos bancos, que por sua vez, são reféns de seu devedores.

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