Mito, poder e propaganda

dezembro 5, 2016

Mito é narrativa que utilizavam povos antigos buscando explicar fenômenos naturais incompreendidos por eles. Pela simbologia, personagens sobrenaturais, deuses, focados em fatos reais se espalhavam de boca em boca através das gerações, aí, se inserindo a propaganda. A lenda trata de narrativa misteriosa ou sobrenatural, somente. O poder constitui a deliberação arbitrária, mando ou capacidade em exercer autoridade ou soberania. Constitui direito em deliberar, exercício de autoridade ou posse de um domínio com influência ou força. A força pode ser ação da propaganda ou disseminação de ideias que mantem ou levem ao poder. A história ensina que a revolução industrial inglesa transferiu o poder da aristocracia à burguesia e assistiu o poder político ser arrastado pelo poder econômico. Com a evolução do processo, a burguesia acabou por sentir-se ameaçada pelo cidadão comum. É nesta transferência de ideias, que se insere a propaganda como sopro criativo da sociedade.
Edward Bernays, no livro ‘Propaganda’ fala que o propagandista compreende o mecanismo controlador dos desejos de forma empírica, conseguindo resultados positivos em sua empreitada na sociedade moderna. Avisa que na sociedade democrática, hábitos organizados e opiniões são conscientemente manipulados. Tal processo, segundo o autor, se faz por oculto mecanismo que acaba por constituir-se em governo invisível, tornando-se um verdadeiro poder regulador. O processo social molda as mentes pelos gostos formados, ideias sugeridas que acabam por nos governar pelos que não vemos e muito menos ouvimos falar. Deste modo a democracia se organiza, arrastando as massas que pretendem viver socialmente em conjunto. Não importa qual a verdadeira importância dada a propaganda nos diferentes eventos estimulantes da sociedade nos campos político, financeiro ou industrial. Fato é, concluindo, que a sociedade necessita deste recurso como executora do chamado governo invisível.
A história humana está repleta de exemplos em que a propaganda é a chama que aquece a sociedade na busca pelo poder e sua consolidação, através de mitos e lendas que acabam por se desfazer pela ação da vida no seu devido tempo. Talvez o maior engano da modernidade tenha sido acreditar que o avanço tecnológico nas comunicações, pela facilidade dos satélites e disseminação da imagem via televisão, daria a seus detentores um poder quase definitivo. Chegaram a pensar que conseguiriam o domínio da vontade das massas, até serem atropelados pela internet que democratizou o acesso a informação. A mudança direcionada dos costumes, o controle de vontades e opiniões, deverão ficar para uma próxima etapa, restando adaptar-se à convivência ao outro. A vida é isto aí.

Nada como antes

novembro 28, 2016

Não se tem conhecimento na aventura humana, história em que uma sociedade prosperou por conta de algum conflito, que por ventura, tenha se envolvido. Os relatos giram em torno da dor, sofrimento, da dilaceração familiar, abandono, morte, tudo devidamente agravado pelo declínio econômico, destruição agrícola, de pastagens e exílio em massa. A medida que se tornam crônicos, progressivamente campos de refugiados proliferam, exibindo tensões entre os diferentes grupos ali conviventes, muito por conta dos escassos recursos. Passa pelo normal mortalidade infantil em descontrole, sequestros de mulheres e crianças ou morte prematura pela desnutrição ou enfermidades controláveis. Insegurança alimentar, duas palavras que tomam corpo mundo afora, ao lado de fome miséria e morte.
Ao lançarmos um olhar sobre as guerras em geral, melhor dizendo, conflitos envolvendo sociedades e povos, os danos à infraestrutura de início atingindo escolas, impactam diretamente no desenvolvimento das gerações futuras. Na infância, desnutrição de forma aguda ou o recrutamento por grupos armados, determinam prejuízo mental nas gerações aí envolvidas. As crianças abandonadas são fator decisivo na falta de educação, por morte ou abandono dos responsáveis. A Maternidade em idade mais precoce pela ignorância ou desproteção, acarreta descaso e prematuridade no parto; um alvorecer humano em perigo psicossocial.
A paz talvez seja a convivência tolerante entre diferentes, com aceitações variadas e consequente tensão entre eles. Nesta premissa, nações em conflito, não se pacificam com tratados como num passe de mágica. Existe um processo de construção social, como na Bósnia por exemplo, em que inimigos étnicos e religiosos com ressentimentos milenares, tiveram que aos poucos, convergirem socialmente. Sob o ponto de vista social, além de crise econômica, experiência com especuladores, carestia e toda uma infraestrutura destruída, como escolas e hospitais, se perdem gerações. Recomeçar a vida com objeções humanas, materiais ou não, ódios, desrespeito ao outro é a questão à se colocar. Convivência pacifica com antigos inimigos, esquecendo crimes cometidos, mostra que o pós guerra é tão doloroso quanto o próprio conflito. Mais complicado é saber que em sociedades consideradas pacíficas, muitas vezes, os níveis de convivência e tolerância são bem menores que aquelas em fase pós conflito e de forma surda e silenciosa, preservam altos níveis de tensão social.

Segurança alimentar e fuga

novembro 21, 2016

Em relatório lançado pela FAO na Somália analisando segurança alimentar e desnutrição, informa que a situação é dramática especialmente nas regiões de Puntland e Somaliland, duramente atingidas pela seca do ‘El Nino’. Avaliam ainda que na região de Deyr, também na Somália, chuvas abaixo da média colocam sob pressão o gado por conta de escassez de pastagens e deslocamento populacional em torno de 70%, pela sobrevivência familiar e dos animais. Quanto aos cereais, tiveram quebra de produção em 87% abaixo da média dos últimos cinco anos; quer dizer, no desastre humanitário o pasto tornou-se fator à mais. Para agravar, os vizinhos Etiópia e Djibuti recebem deslocados, colocando sob pressão suas pastagens, daí, conflitos entre as populações humanas. Traduzindo em números, temos 4,7 milhões de somalis necessitando assistência humanitária, 950 mil carentes em situação aguda de insegurança alimentar. Concluindo, 68% dos deslocados internamente estão em necessidade alimentar aguda e em 2016 este número será de 3,7 milhões de pessoas. Na infância serão 305 mil crianças em desnutrição aguda, sendo 58.3 mil com risco de morte.
No caso do Sudão do Sul o saldo do atual conflito são dois milhões de deslocados ou mortos, difícil acesso à água e alimentos, sem falar em danos materiais à infraestrutura. Apesar do acordo de paz firmado em 2015, a violência continua atormentando quase todo o país. Um detalhe sobre os conflitos na África é que a violência além de institucional entre governo e grupos armados, ocorre entre comunidades rivais por conta da invasão de pastos, tudo devidamente agravado por um poder judiciário totalmente ausente, favorecendo deslocamentos forçados. Uma em cada cinco pessoas são forçadas a fugir num total de 2,3 milhões e desde o início do conflito, deslocaram-se 1,66 milhão de pessoas com 53,4% de crianças e 644 mil nos países vizinhos.
Diremos que na África verdadeiramente se encarnam os três Cavaleiros do Apocalipse, evidenciados no ódio, miséria e doença, aqui, compreendido como mal físico e ambiental, constituindo a fórmula exata à tempestade perfeita. Como amostra, constata-se que vários pacientes soro positivos de AIDS ao se deslocarem, abandonam o tratamento e não mais retornam. Vale ainda pensar que a riqueza chamada Petróleo, não retirou da miséria pobres e emergentes. Os melhores exemplos estão na América Latina e África. O detalhe é que não sabem explicar com clareza o que andaram fazendo com o dinheiro ganho no eldorado da commoditie. Apesar de tudo, vale ressaltar casos bem sucedidos como do rio Shebelle, que por conta de trabalho preventivo, reduziu os efeitos danosos do El Nino, utilizando-se de técnicas de armazenagem de grãos e aproveitamento das águas pluviais, conseguindo daí, sobrevivência. Mirando aqui, o futuro.

Deslocamentos em massa

novembro 14, 2016

A razão principal em se prepararem estatísticas na questão dos refugiados é dimensionar o problema visando melhores decisões. A Unidade de Atenção e Reparação integral às vítimas na Colômbia, avisa que dos inscritos, basicamente 84,2% são deslocados, 3,5% homicídios e 2,1% desaparecimentos. A Colômbia foi o único país da América Latina em que foi declarada a existência de uma crise humanitária. O estudo Violência Colombiana nos avisa que em 1962 haviam duzentas mil pessoas assassinadas desde 1948. Com a guerra civil em andamento, em 1994 o governo dizia haverem 600 mil deslocados e a Unicef falava em 900 mil. Quanto ao perfil das vítimas haviam mais mulheres que homens, crianças em grande quantidade e um quarto de afrodescendentes e indígenas. Outro fato sobre a guerrilha em fase de negociação é que em 2015 houveram 1425 famílias deslocadas totalizando 5721 pessoas, em 2016, houveram dezesseis deslocamentos em massa. Ao evoluírem as negociações, grupos criminosos, ex-paramilitares e guerrilheiros, armados, preservam espaços territoriais.
Por conta da questão acima, autoridades do Quênia alegando motivos econômicos, de segurança e ambientais fecharam o maior campo de refugiados do mundo. De consequências desastrosas, segundo organizações internacionais, afeta o complexo de Dadaab, o maior campo de refugiados do mundo, com aproximadamente 600 mil pessoas vindas da Somália e Sudão do Sul. O caso somali é o mais dramático pelos mais de 25 anos de conflito segundo a Human Rigths Watch. Para a diretora da MSF no Quênia, trata-se de flagrante negligência o fechamento do campo e repatriamento dos refugiados à seus países de origem. O caso somali afeta 330 mil pessoas e um país destroçado por uma guerra sem fim. Segundo a ONG, cerca de 4,7 milhões de somalis ou 40% da população, precisam de ajuda humanitária.
A questão dos deslocados em massa por conta de conflitos armados, não se resolve simplesmente com um acordo de paz. Primeiro, os deslocados perdem em sua maior parte, os bens adquiridos ao longo da vida. No retorno, não há a certeza que não encontrarão seus algozes armados nos locais de origem, ou se terão oportunidades justas ao reiniciarem a nova vida; portanto, uma questão que não termina com um simples armistício. Para piorar, países com situação financeira mais precária como Jordânia e Quênia, pela proximidade ao conflito, acabam com o maior peso dos refugiados. Por sinal, foi a rejeição aos refugiados pelos países da UE, que possibilitou a facilitação e avanço da integração turca no bloco europeu, quebrando resistências históricas e preconceituosas. Mesmo que devagar e com todos os defeitos, a fila segue andando ao longo do tempo.

História e ofício

novembro 7, 2016

Conceituaremos ofício como ação ou trabalho que necessita determinada técnica, habilidade ou especialização. Daí a ideia de ocupação, trabalho remunerado em que são retirados os meios para a sobrevivência. Por sua vez, trata-se de um serviço comprometido visando execução ou incumbência por hierarquia. Em consequência ao conceito de trabalho surge o de mercado de trabalho em que as mercadorias ou o fruto do ofício são expostas à comercialização, inseridos na lei da oferta e procura. A relação capital e trabalho é por valorização do trabalho pelo capital.
Ofícios existiram e sucumbiram em decorrência do tempo a que estão expostos. Trata-se portanto de atividade remunerada e fruto do tempo vivido. No auge das sangrias, surgiu o ofício de pescador de sanguessuga, consistindo em entrar nos pântanos e deixar-se sugar pelos vermes, que saciados, se desprendem e assim apanhados. A paga pelos sanguessugas era pão com um copo de sangue; um costume de época. Com a decadência do modismo o ofício também minguou. No Egito antigo haviam escravos que se untavam com mel para atraírem moscas, evitando assim, infortúnios ao senhor. Nos séculos XVIII e XIX, com o advento da anatomia e pesquisas envolvendo o sistema circulatório, viu-se florescer nas faculdades de medicina o uso de cadáveres, surgindo daí os comerciantes de corpos, que assim, satisfaziam a ciência.
Como vemos os ofícios se inserem no mercado de trabalho pela busca necessária da sobrevivência humana. Nossa sociedade de consumo, produziu imensa quantidade de lixo que a modernidade ao se conscientizar, pela quantidade acumulada, busca o reaproveitamento com o nome de reciclagem. Se faz evidente que tal matéria prima não possui valor no mercado, correndo o risco em se tornar uma atividade de remuneração menor ou periférica. Caso não sejam promovidas ações que valorizem a atividade recicladora, que pelo aprimoramento, necessita nos países mais pobres valorização justa do trabalho executado, desde a coleta, a separação e o retorno à indústria. Por se tratar de um anti mercado não especulativo, deve ser na economia colaborativa a busca por valorização adequada do trabalho em questão. Em tal empreendimento se insere uma moeda ambiental virtual, atrelada ao ouro, que dê valor maior ao trabalho executado do que na economia formal ou especulativa. Desta forma se conseguirá iniciar uma luta para nos livrar da cilada econômica que a todos aguarda; a marginalização do ofício de reciclagem nos países pobres.

Compreensão e conhecimento

outubro 31, 2016

Edmund Husserl em exposição sobre a fundamentação do conhecimento, nos ensina que a filosofia trata-se de assunto inteiramente pessoal. Afirma a necessidade de interiorização do filósofo, na busca por derrubar conceitos científicos existentes e sua posterior reconstrução. O saber filosófico é universal baseado em razões individuais evidentes. Busca um início seguro em conjunto ao método de progressão sem o apoio científico. Afirma que Descartes é o protótipo necessário à filosofia, ao empreender radical viragem do objetivismo ao subjetivismo buscando inovar a compreensão. Tal ideia ocorre no retrocesso que origina a epoché (colocar entre parênteses) uma atitude de não aceitar ou negar determinado juízo. Descartes se opõe ao dogmatismo na aceitação de proposição no ego das cogitações. Daí a dedução da existência e a veracidade divina, e por intermédio desta premissa, buscar a natureza objetiva da realidade, o dualismo das coisas que detém o terreno sólido das ciências.
Por conseguinte, a escritora de literatura francesa infantil Brigitte Labbé, junto com Michel Puech e François Dupont-Beurier, produziram a coletânea infantil ‘Pílulas de sabedoria’ com questões conflitantes às crianças. Brigite avisa que busca transmitir ideias filosóficas consideradas complexas. Mais do que conceituar a paz diz que o melhor é compreendê-la, que deve ser construída, nunca é definitiva e necessita cuidados. Observa ser importante que novas gerações examinem na tenra idade assuntos complexos como guerra e paz, moral e imoral, vida e morte, contaminação e ambiente, homens e máquinas etc. Afirma ser tabu achar que as crianças entendem menos que os adultos destas questões, que o problema está na forma como são apresentadas, necessitando linguagem direta, sempre que possível, usar a lógica em seu entendimento sem respostas pré fabricadas. Cita como exemplo Guerra e Paz de Tolstói refletindo que a guerra faz parte da vida das crianças. Sempre utilizando o método da contraposição como justiça/injustiça, por exemplo. Fala por fim, que crianças não devem esperar uma determinada idade para pensar estes temas, já que fazem a seus pais perguntas completamente filosóficas, desta forma, acabam por formar a crítica e o livre pensar.
Tempos atrás, a Noruega protagonizou um evento se encaixando muito bem na discussão acima. No verão europeu, o partido social democrata deste país reuniu em uma ilha jovens visando discutir temas nacionais, políticos e sociais, lógico, alternado com momentos de lazer, confraternização e amizade. Numa manhã, um neonazista uniformizado equipado com armas automáticas, surpreendeu a todos provocando carnificina entre os participantes. Talvez caiba aqui a ideia de ‘faces da mesma moeda’, o resto fica a cargo de cada um.

Duas questões

outubro 24, 2016

A Etiópia após trinta anos no vivenciar um desastre humanitário pela fome e seca, manda a notícia que nos últimos anos tem conseguido as mais altas taxas de crescimento do mundo; em torno de 10%. Em paralelo, surge relatório que seu IDH, índice de desenvolvimento humano, pouco mudou na última década, apesar de ser, neste quesito, um dos dez países com maiores ganhos absolutos ou 173º em 186 países, segundo o PNUD.
Outra notícia é que o FMI descobriu que Moçambique escondeu mais de um bilhão de dólares de dívida externa e com isto, amaciou a Instituição por conta de algo mais palatável. Para o país, uma senhora grana de forte repercussão na macroeconomia. A coisa veio à tona, quando a mídia estrangeira descobriu um relatório do Ministério das Finanças moçambicano em que a dívida pública era de 9.5 bilhões de dólares, contrastando com o divulgado pelo governo de 8,1 bilhões. A diferença de 1,6 bilhão são empréstimos não contabilizados da Empresa Moçambicana de Atum, com garantia do governo; quer dizer, um abalo no mercado de dívida.
Por conta de sectarismo religioso, a Etiópia ficou subordinada à hierarquia coopta egípcia até os anos 50 e precisou aguardar o capitalismo chinês investir na construção hidrelétrica em um dos rios que formam o Nilo, com as devidas consequências; alteração no regime de cheias e grave tensão na política externa. Em paralelo, o grande crescimento obtido não mostrou melhorias significativas do IDH, em miúdos, dificuldade em quebrar o ciclo de pobreza crônica. Outra questão, má gestão econômica, com modelos geralmente oriundos da colonização. Moçambique, viu por bem, maquiar a dívida pelo seu descontrole na gestão, corrupção e clientelismo. Isto mostra que as ações praticadas são insuficientes para romper o ciclo de miséria, promíscua à tensões político militares internas e externas. Um conjunto de artimanhas perversas, colocando miséria e ignorância como atores principais.

Comportamento e vigilância

outubro 17, 2016

No século XIX fidalgos resolviam diferenças com o duelo como última solução. Ao amanhecer, diante testemunhas, iam às vias de fato. De costas um para o outro, com armas em punho, conhecedores das regras, dez passos em frente, meia volta e tudo resolvido. Deste modo procediam, até que certa feita, no nono passo, um deles vira-se e espera pelo décimo passo do oponente, que assim procedendo, recebe o tiro mortal. A discussão pelo rompimento das normas não prosperou, em sendo respeitado o tiro pelas costas, ao se virar no nono passo e esperar o oponente de frente, evitou a quebra do acordo. Prevaleceu a ideia do delito leve, não um crime, decisivo ao sucesso de um e fracasso do outro, sem o explícito rompimento das regras. Neste contexto, aparecem o comportamento e a vigilância preservando preceitos de convivência de época, evitando a burla.
Dentro da premissa do comportamento e vigilância, a escritora Shoshana Zuboff descreveu no periódico alemão ‘Frankfurter Allgemeine’ a existência de um novo modo de atuação praticado pelo Google, chamado de capitalismo de vigilância. Considera o controle governamental irrelevante se comparado ao do gigante da internet. Tal sistema econômico, unilateral segundo ela, visa benefícios por conta da modificação comportamental pela vigilância. Relata que quando catálogos de publicidade são enviados, baseiam-se no uso de dados que visam a modificação do comportamento. Quer dizer, o sucesso do Google decorre de sua capacidade em predizer o futuro dos costumes, pela análise dos dados obtidos nas buscas. Tal conceito em linha com Tom Wilson da AllState, ao dizer que a tecnologia permite à seguradoras venderem dados de comportamento do consumidor, usados em restaurantes e vendas de imóveis, por exemplo. Avisa ser possível manipular o mercado de vontades aumentando preços e concedendo descontos em tempo real.
Novamente a luta das civilizações, no passado, via estados, buscando controlar costumes e populações pela vigilância e sua modificação favorável à seus interesses. Hoje, além dos estados, surgem as corporações tentando modificar costumes também à seus interesses. Evidencia nova luta pelo poder entre mega empresas e estados, como a Apple e o FBI, com maior volume no tratado de livre comércio entre UE e EEUU, colocando em jogo o poder do Estado versus Corporações.

Intermináveis conflitos

outubro 10, 2016

Estudo publicado pela revista Nature elaborado no MIT e Universidade de Loyola sobre as condições climáticas do Golfo Pérsico, destaca a baixa profundidade, a intensidade solar e poucas medidas de mitigação, como condicionantes nos impactos do aquecimento global, ocasionando provável inabitabilidade humana. Por modelos climáticos, concluiram que muitas das cidades da região poderiam superar o ponto de inflexão da sobrevivência humana, até mesmo em áreas de sombra e adequada ventilação.
O banco Mundial no estudo “Adaptação às mudanças climáticas no Oriente Médio e Norte da África”, explica que temperaturas altas e menos chuvas, aumentarão a prevalência de secas e escassez de água. O agravante desta situação é a grande dependência agrícola ocasinando uma maior vulnerabilidade às mudanças. Outra questão importante é que em zonas urbanas costeiras, uma população de vinte e cinco milhões de pessoas e a atividade econômica ficariam expostas à inundações. Agravam a questão, ondas de calor, piora na qualidade da água e a formação de ozônio à níveis do solo danificando a saúde em geral. Quanto ao nível do mar, sua elevação se fará notar em 24 cidades do Oriente Médio e 19 da África do Norte, com graves consequẽncias econômicas. Satélites examinaram o avanço do mar entre 1991 e 2005, concluindo-se que no Mediterrâneo, o nível se eleva em 8mm, enquanto no geral, são 3mm. Como exemplo, Alexandria aumentando 0,5m o nível do mar acarretaria prejuízo de 35 bilhões de dólares.
Consideremos que o consumo de água se multiplicou por cinco, dos quais 43 bilhões de litros para uso doméstico e industrial e 187 bilhões para agricultura. Há que se notar que a escassez de água gera insegurança e conflitos por conta da dependência na atividade agrícola. O Instituto de Recursos Mundiais (WRI) produziu uma classificação com modelos climáticos e cenários econômicos de stress hídrico em 167 países, em 2020, 2030 e 2040. Em 2025, até 100 milhões de pessoas sofrerão stress hídrico, em 2040, 33 países estarão nestas condições, todos do Oriente Médio. Diante este quadro os envolvidos sabem que, unidos e dialogando entre si, será complicado conter a situação, que dirá, sob tutela das armas nos intermináveis conflitos. Certamente morte anunciada.

Muito, pouco, quase nada

outubro 3, 2016

O presidente da Sociedade Dominicana de Psiquiatria, Dr Jorge Miguel Gomez, afirmou recentemente preocupação com as alterações da dinâmica familiar em seu país, por conta de indicadores de maus-tratos, violência, assédio e abuso de crianças. Disse que, na família, estão os maiores riscos de mortes violentas devido a pobreza, exclusão social, vulnerabilidade e stress. Afirma que as mais afetadas tem relação direta com a questão psico-social, pela marginalização dos pobres, desemprego, doenças disfuncionais e stress social. Tudo cronificado por frustração, tensão social e desesperança, ocasionando mentes paternas problematizando socialmente os conflitos internos. Resulta daí, depressão, stress, com pouca tolerância na solução de conflitos diários e com os filhos.
Por conta disso, o filósofo John Rawls estabelecendo princípios nas escolhas sociais, enumera a liberdade, a diferença e a oportunidade como pilares básicos, em que a predileção está sob véu de ignorância do sujeito por conta do lugar que ocuparia na sociedade preferida. Por desconhecimento, tenderia à imparcialidade com receio de prejuízos nas decisões tomadas. Além disso, Rawls fala em benefícios aos menos afortunados como degrau primeiro nas desigualdades, concomitante a igualdade efetiva nas oportunidades. Justifica a intervenção estatal na busca por igualdade e oportunidade, com serviços públicos eficazes aos necessitados e eventualmente aos menos carentes. O financiamento viria do velho imposto cobrado à todos. Defende ainda subsídios buscando afrontar a miséria e o desemprego ao lado de políticas eficientes de inserção social. Avalia como dever compartilhar talentos com os menos favorecidos e não aumentar abismos. Por fim, a crítica à desresponsabilização e acomodação é mal a se combater.
A precariedade no viver ou estado de carência e pobreza, não se trata somente da falta material mas de um estado crônico que dura uma vida ou geração consumindo as pessoas em seu melhor. Trata-se de desesperança, sensação de impotência ou perda no controle ao encaminhamento cotidiano, resultando não só carências materiais, mas desgaste emocional refletido na incapacidade ao enfrentamento diário. Questões políticas que possam advir, como participação efetiva ou não do estado, por mais questionáveis que sejam, deixam em muito a desejar, pior, deixam gosto de injustiça na alma dos envolvidos. Na verdade, o viver não deveria se restringir ao muito, ao pouco ou ao quase nada, e sim, a uma visão mais aberta no conviver.


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