Espaços vazios

A ilustradora mexicana Idalia Candelas começou há um ano e meio a desenhar os momentos que viveu sozinha na cidade do México por oito anos. Nas redes sociais com mais de 30 000 seguidores no Instagram, Twitter e Facebook, seus desenhos sobre o cotidiano em estar só tornaram-se virais. Não levou muito para que suas ilustrações em preto e branco fossem vistas em cadernos, celulares ou cortinas. Diz que no México é grande o preconceito com a mulher que vive só, principalmente em ralação ao fato que seu estado de espírito em estar consigo mesma não é depressivo ou frustrante. Mesmo com a ausência de solicitações sociais em relação a filhos, marido etc acaba por refletir paz e tranquilidade. A autora defende o prazer em ser solteira na contra mão aos preconceitos contra a tribo que floresce com força na modernidade.
Desta série de ilustrações surge o livro ‘A Solas’ (A sós) com grande aceitação no mercado editorial principalmente Grécia, Polônia e África do Sul. Em pouco tempo, as imagens em preto e branco de mulheres em seus momentos diários viu-se multiplicada na imprensa. A Solas apresenta na capa a ilustração da menina deitada em sua cama sem fazer nada. Fala em momentos a sós, agradáveis, corriqueiros, como tomar café na cozinha ou ler um livro. Mesmo sem a pretensão em fazer uma análise contemporânea da solidão, foi em cheio na alma de boa parte do espírito feminino moderno que desfruta da própria companhia. Fala que a conexão na rede permite a vida solitária em casa e que acabou por criar uma marca e loja virtual visando comercializar suas ilustrações. Depois da solidão, Idália pretende retratar a nostalgia com uma série dedicada a lembranças que deverá se chamar ‘Espaços Vazios’.
O fato em ilustrar despretensiosamente o cotidiano de uma vida a sós tornar-se viral nas redes sociais e posteriormente uma atividade profissional bem sucedida, mostra a captação de forma robusta de um sentimento em ascensão. Com novo olhar, o viver a sós na modernidade reaprende a conviver acompanhado de si, afastando o fantasma do abandono e isolamento. Não se trata aqui de uma tendência, modismo ou vida melhor que a dos outros, mas apenas uma forma à mais em viver e conviver consigo. Dentro de um início, que pode ser ou não voluntário, com o tempo acaba por fazer conhecer-se melhor ocupando nossos espaços vazios. É a vida em contínua mutação.

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O gigante do norte

Conta a história que acordos entre índios e brancos por volta de 1850 trocavam grandes extensões de terras do Minnesota por compensação financeira e bens. Parte das compensações acabaram rejeitadas no Senado que não impediu a redução dos territórios indígenas. A criação do estado de Minnesota, levou a chegada de colonos que acabaram por entrar em conflito com os índios. Neste clima de confronto surge em 1862 a sociedade secreta os ‘Cavaleiros da Floresta’ com o objetivo de eliminação indígena do estado, tornando-se referência à criação no Sul da Ku Klux Klan em 1867. Possuíam código de conduta, prestavam juramento visando eliminar índios, inclusive com sacrifícios políticos e se comprometendo ao sigilo. Por fim, o Congresso americano sucumbindo à pressões cria leis que expulsam os índios do estado.
Nesta ideia de grupos de pressão com forte influência política nos EEUU, algumas curiosidades sobre seus mandatários. George Washington foi o único presidente com 100% dos votos no Colégio Eleitoral. Até 1856 para votar era necessário ter propriedade e só os brancos as possuíam excluindo 94% da população. A 15º emenda concedeu o direito de voto aos negros acatada em muitos estados após 1960 com a lei dos direitos civis. O mesmo foi negado pelos estados aos nativos em 1924 e só efetivando em 1940. As mulheres adquirem o direito de voto com a emenda 19 em 1920. Em 1824 o presidente eleito não venceu no voto popular mas no Colégio Eleitoral, situação vivenciada por três outros candidatos. Em 2000 Bush filho perde no voto popular e ganha no Colégio Eleitoral. Por fim, a democracia americana é bi-partidária indireta e o primeiro presidente nativo só se efetivou em 1837, sendo os sete precedentes súditos britânicos.
Um dos legados inglês aos americanos são as conhecidas sociedades “não visíveis” bastante ativas, criadas em instituições religiosas ou universitárias tradicionais. Nos EEUU, muitas se formaram com objetivos específicos, em chegando ao poder, buscam praticar sua razão principal, não confessa. A seleção dos membros se faz por provas que escamoteiam seu verdadeiro objetivo, aceitação dos princípios pelo candidato. No passado, o grupo que defendia a supremacia racial branca, albergou no pós guerra os convergentes na violência política como religiosos, cristãos ou não, neonazistas ou fascistas. Destaca-se o grupo oriundo da universidade Yale de ex presidentes ligados ao Texas, que defendeu o controle da produção do petróleo no Oriente Médio pelos americanos. Adequado se lembrar que da Inglaterra muitos destes grupos se proliferaram pelo mundo. Sua folha corrida é imensa no pós guerra, já que a história ensina que a decisão americana em invadir a Europa, vem na constatação da impossibilidade de vitória nazista na Rússia. Do atoleiro no Vietnã ao Brexit, violência policial contra negros, agora o atoleiro islâmico, com a colateralidade imigrante, que se espera bom termo. Talvez seja oportuno perguntar se estão presentes, com maior ou menor visibilidade, na terra de Cabral ou isto são coisas da imaginação dos incautos?

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Burocracia e soluções

Recente noticia nos dá conta que russos e indianos firmaram o que chamaram de corredor verde, em que promoveriam o comércio bilateral com o mínimo de burocracia possível, facilitador das trocas entre os dois países. A respeito da velha notícia que burocracia empata os investimentos, o recém empossado governo peruano busca estabelecer um projeto chamado balcão único para procedimentos como royalties flexíveis de contratos, incentivos à exploração mineira e etc. A sociedade de Mineração e hidrocarbonetos peruana, avisa que há 20 bilhões de dólares em projetos esperando solução, segundo eles, por obstáculos burocráticos e ambientais. Especialistas peruanos dizem que há para a chamada permitology ou liberação de determinado projeto, uma gama de até 30 autorizações, sendo a maioria delas ligadas à questões ambientais. A outra questão se refere a procedimentos regulares em orgãos públicos, que podem levar até três anos enquanto a média ideial seria, segundo eles, de 6 meses. Por fim, em discussão neste país a licença social que é uma consulta à comunidades próximas por futuros projetos de mineração.
Na trilha da burocracia e ambiente, a OMS diante notícias que a poluição do ar é responsável por uma em cada nove mortes, cerca de 6,5 milhões de pessoas no mundo, lançou uma campanha de conscientização e promoção de energia limpa, priorizando os mais pobres. Em cima de transporte e habitação visando modernizar o sistema de mobilidade, melhorando a qualidade do combustível e evitando nos mais pobres, queima de madeira, lixo e resíduos agrícolas. A campanha envolve principalmente cidades como Santiago, México, Katmandu, Oslo e Daca. Caso os mais pobres eliminem o uso do carvão no aquecimento das casas, a queda da mortalidade é imediata.
A tensão entre agronegócio, economia extrativista, comunidades e ambiente versus burocracia, ainda parece que levará muito tempo em pauta. O capital reclama que estas questões atrasam investimetos e por conta, o desenvolvimento. Em contra partida, o outro lado da corda fala como contraposição, em ação predadora. Decerto a conscientização um dia deverá encontrar um ponto de equilíbrio com perdas certamente econômicas, pois o contrário, o desmatamento e o extrativismo desenfreado acabam por caír na ilegalidade.

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O mais próximo

Por constituição o ser humano é um ser social, daí a convivência, que trata da ação em viver na companhia de outro. A interação pacífica e harmoniosa num mesmo espaço é nescessária ao bem estar e saúde do indivíduo. As dificuldades na convivência podem ser sociais culturais econômicas e etc, que baseados no respeito e solidaridade, deveriam ser superadas. É consenso que a convivência inicia na proximidade e queiramos ou não, os mais próximos são nossos familiares. Todos concordam que a convivência com o outro só terá lugar com a tomada de consicência do ‘Eu’.
A realidade diante transtornos mentais apontam ao cansaço, tristeza, frustração e ao medo, que abate os próximos à doença, além do estigma que se estabelece sobre o doente, como se inserido na seleção natural de Darwin. Os momentos difíceis dos parentes ou cuidadores dos que sofrem transtornos psíquicos, acabam por contaminar como algo infeccioso, com certo grau de morbidade, visto principalmente em estados depressivos. O fator mais importante na família do doente é o próprio doente, que afeta a dinâmica familiar pela intensidade dos sentimentos gerados.
A ONG britãnica MIND dedicada à saúde mental, sugere aos próximos dos casos de transtornos psíquicos, algumas atitudes que talvez possam ajudá-los a enfrentar o difícil conviver: manter-se saudável via alimentação adequada e regular, descansar o suficiente e alguma atividade física. Compartilhar a dor com iguais, de preferência por meio mais fácil. Aconselha alguma técnica de relaxamento buscando preservar a própria saúde mental. Manter a vida organizada visando algum imprevisto em relação a medicamentos ou telefones de emergência. O mais urgente da convivência que envolve pessoa com desarmonia psíquica no espaço comum e aos próximos a ele, a intensidade de emoções, em muitos casos desestrutura a todos. Além do sofrimento pessoal em si, vem à tona frustações individuais, sonhos e projetos muitas vezes desfeitos. O que dizer? O que fazer à mais, além de aguardar, quem sabe, dias melhores.

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Adicto

A história nos ensina que os ingleses, consequente a segunda fase da revolução industrial no século XIX, por necessidade de matérias primas baratas e busca de mercado consumidor à seus produtos, miraram o olhar ao Oriente, especificamente China e Índia. Consequente ao desinteresse chinês em comprar produtos ocidentais e o interesse ocidental por chá, seda e porcelana, o comércio entre os dois países tornou-se deficitário aos ingleses. Por conta da desvantagem, passaram a pressionar os chineses combatendo suas restrições ao comércio exterior. Os indianos, abertos e produtores de ópio junto aos turcos foram a salvação inglesa, que ao introduzirem a droga na China conseguem equilibrar a situação. Em 1835 o ópio ocupava no mercado chinês volume anual equivalente a um grama para cada um dos 450 milhões de chineses, ou metade das exportações inglesas ao país. O resultado foi corrupção enfraquecimento e duas guerras, com vitórias inglesa, ocupação de Hong Kong e liberação dos portos ao comércio do ópio.
Nesta ideia de estupefacientes, o escritor Norman Ohler no livro ‘A Grande Ilusão’ fala do papel exercido pelas drogas na Alemanha Nazista. O Pervitin (meta anfetamina), fabricado no país em 1937 foi distribuído às forças armadas, fala na íntima relação de Hitler com a cocaína, heroína e meta anfetamina, em suma, psico estimulantes. Diga-se de passagem que a indústria farmacêutica alemã cresceu tornando-se uma das maiores exportadoras de opiáceos, ou, derivados da morfina e cocaína. No caso específico do lider nazista, sua relação com drogas, segundo o autor, começa com o uso de vitaminas e glicose injetável e ao se unir ao médico Theodor Morel, passa ao uso supervisionado de substâncias estimulantes mais eficazes, quando a campanha na Rússia começa a fracassar. Inicia-se aí, o uso de hormônios esteroides e barbitúricos, segundo documentos do Dr Morell, Hitler tomou cerca de 800 injeções num espaço de 1349 dias. Neste período usou de modo contumaz o eukodal, analgésico opiáceo primo da heroína, agora chamado de oxicodona. Ohler escreve que aos SS foram distribuídos compostos à base de cocaína e eukodal, conhecido como speedball. O autor relata que a mistura mágica se espalhou no país entre pessoas comuns como donas de casa, atores e motoristas, visando melhorar a confiança e desempenho. No meio militar foi usada para combater o stress e a fadiga.
No caso alemão o objetivo da empresa farmacêutica era rivalizar o Pervitin com a coca cola. Ninguém discute que os narcóticos serviram para manter convicções nazistas que acabaram por afastá-los da realidade pelo delírio e irracionalidade em dominar o mundo. Até Mussolini identificou a fuga alemã da realidade ao tentar pular fora do barco e convencido do contrário pelo Fuhrer em julho de 1943. Já o caso chinês, além do domínio de um povo, havia o interesse comercial debilitando a sociedade como um todo. A grande realidade são os exemplos que estão aí ao lado da popularização das ditas substâncias proscritas. As bebidas energéticas disseminaram e não há competição esportiva sem estimulantes. O resultado passado foi brutalidade, fuga da realidade, objetivos e pensamentos delirantes, sem que tenhamos certeza que as lições, nos dois casos, sequer foram consideradas.

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Valores

Bertrand Russel explica que os valores são posicionados fora da ciência ou do conhecimento com ideias entre o bom e o ruim. Neles são expressas emoções sem indicações de verdade suscitando sentimentos. No campo científico, ensina o filósofo, se discutem causas e meios ignorando o falso e o verdadeiro tratados nas disposições éticas. Neste contexto insere a ideia da subjetividade sobre valores discordantes quanto ao gosto, mas não quanto ao gênero de verdade. Quer dizer, as divergências envolvendo valores são do mesmo gênero, mesmo que pensemos o contrário. Em complemento a Russel, Frondizi fala da necessidade de uma base aos valores ou qualidades, como beleza elegância utilidade etc. Conclui, dizendo que os valores apresentam como característica fundamental a polaridade, o que implica na ruptura com a indiferença ordenando-os de forma hierárquica.
Nesta ideia de valores se inserem grupos de pessoas apresentando conceitos em comum, visando alcançar excelência no desenvolvimento individual e coletivo. Trabalham auto-estima buscando satisfação nas tarefas diárias, seja em relação ao indivídual ou ao coletivo. Buscam, analizando as origens, consciência da intensidade de emoções e sentimentos. Procuram relacionar-se ao outro, trabalhando com todos habilidades de comunicação claras e decisivas, concordantes ou não. Além de manter a disciplina nas atividades diárias, modo pelo qual se atinge objetivos, buscam efetividade nas ações evitando adiamentos. Por fim, preservam a privacidade, protegendo desta forma, diversas dificuldades individuais da desnecessária exposição.
A questão envolvendo valores como um todo está em linha com as afinidades que reúnem os seres humanos, levando ao agrupamento em busca de proteção e desenvolvimento. Tal evento, por vezes se confunde com hostilidade ao próximo. É também real entre nós, que a luta pela vida sempre há uns mais outros menos posicionados socialmente, dando margem aos conflitos de valores. Decerto o viver necessita profunda análise individual e coletiva, para livrar o ser humano como um todo, do ciclo de confronto a que está inserido.

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Setembro passado

O jornal russo Siberian Times, relatou no início de setembro passado os efeitos adversos provocados pelo tufão Lionrock que atingiu o extremo oriente da Rússia e Japão. O Centro de meteorologia de Primorsky, avisa que se trata do mais poderoso evento deste tipo registrado na região nos últimos cinquenta anos. Com ventos de mais de 120 kms/h e uma pressão atmosférica de 965 hectopascais, causou inundações nunca vistas com declaração de estado de emergência, inviabilizando 1200 casas bloqueio de estradas e colapso de energia. Aqui uma peculiaridade: a região é dependente do uso de lenha como fonte energética, tornando soluções mais complexas.
Ainda o Siberian Times, nos avisa que em fins de setembro partiu uma expedição ao mar de Laptev liderada pelo cientista Igor Semiletov da Universidade de Tomsk, constatando pela degradação do permafrost (solo ártico eternamente gelado), aumento de emissão de metano ártico em relação a 2014. Trata-se de mega-emissões decorrentes ao degelo nas regiões mais frias, que acabam por liberar grandes quantidades de metano subaquático agravando o efeito estufa. Parece definitivo que o gelo impede a saída de metano das reservas submarinas, apesar de ainda não se determinar a quantidade armazenada e não se conhecer a intensidade do dano que provocará. Sabe-se que havia em 2014 mais de 500 campos emitindo gás na região, alguns com mais de 1km de diâmetro. Sabe-se ainda, que em 2013 era lançado na atmosfera ártica cerca de 17 teragramas de metano/ano (sendo 1 teragrama=1milhão de toneladas). Pela molécula do metano ser 30 vezes maior que a de CO2, o dano ambiental é muito mais grave e na Sibéria, a média de emissões é superior a média dos demais oceanos.
Os relatos do Siberian Times traz uma questão preocupante, além do desastre extremo de evolução súbita, destruidor e fugaz, temos  um grande limbo ambiental e uma constatação, mais que um evento grave, uma contradição, pela perda por escape de grande quantidade de energia. Ao lado do agravamento, aparentemente sem controle, parece que nada no momento pode ser feito para contornar danos locais e o pior, efeitos à distância que ninguém sabe ao certo como virão. Parece definitivo que o homem contemporâneo está em cilada inesperada de imprevisíveis consequências às futuras gerações. Surpreendido, assiste até aqui, passivamente.

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