Recordações
Relembrando 1929, não custa repetir que havia excesso de oferta sobre a demanda, grave endividamento europeu agravado pela dificuldade de entrada de dinheiro consequente ao protecionismo americano, enfraquecendo o mercado. Esta receita levou a queda dos preços devido ao encalhe dos produtos que foram desovados a preços abaixo do custo. Para piorar o imbróglio, a solução encontrada foi simples: cortar salários dos trabalhadores como forma de arrumar gastos, com graves consequências sobre o consumo.
Óbviamente que numa situação dessas todos buscam suas soluções mais adequadas, e no caso em questão, houve um aumento brutal da atividade especulativa com uma corrida àquilo que parecia ser a solução: investimento em bolsas de valores visando obter dinheiro fácil, via especulação, lógicamente desviando capital produtivo para este canal. O resultado foi simples, com o aumento da procura maciça por ações, seu preço aumentou bruscamente e muito acima do seu valor real, tornando a atividade bulsátil desalinhada da economia real. Evidentemente, que à época, o protecionismo americano tinha um peso muito forte sobre a economia global, dando a Tio Sam, vantagem interessante em relação ao restante do mundo, principalmente a Europa.
A querela se agravou ainda mais, pois o governo americano assumiu uma postura irreal contra seu verdadeiro significado, vendendo a ideia de que não passava de uma marolinha, negando ajuda a bancos e empregados, deixando capital e trabalho por conta da mão invisível do mercado, tal qual pensava o recente presidente do FED Dr Grispann. Tudo isto agravado pela forte dependência econômica do mundo aos EEUU. Básicamente e em linhas gerais, este foi o estopim para a grave crise de 29 que se abateu sobre o mundo. Se pudessemos resumir de forma simples, diríamos que a visão equivocada de quem estava em vantagem na disputa, os EEUU, visualizando ganhos imediatos, visto aqui como ilusão de lucro fácil via especulação bulsátil como se fosse uma panacéia, deu o tom da grave crise em questão.
O mundo mudou e a tecnologia deu nova forma de intrumentalização do universo, o homem atual nem de longe se compara ao de 29 na forma de manejar a vida, enfim, o momento é outro. Talvez haja uma questão que comparando os momentos diríamos que não mudou, ou que as ideias colocadas, ou os pontos de vista predominantes, foram os mesmos. Somos obrigados a considerar que o tratamento dado à obtenção do capital, talvez seja o mesmo em ambas as épocas em que o mercado surgiu, lá como cá, como maná para obtenção de dinheiro fácil. Por fim, construir a economia com dinheiro obtido inicialmente à juros baixos, e que todos sabem, com o evoluir da situação tornam-se insustentáveis.
Importante dizer que uma visão falsamente otimista buscando criar ambiente de avanço ou de já ganhou, leva a perda de contato com a realidade aumentando o abismo com a ilusão, tudo agravado atualmente pelo problema climático que precisa ser enfrentado. A realidade nos mostra que o tratamento trará danos ao emprego e a atividade econômica. Não que a crise atual seja igual ou pior que a de 29 ou outras crises quaisquer que nos assolam, mas a visão ou ideias que se colocam com seus onus e bonus, precisam sim ser enfrentadas com realismo. As perdas virão, queiramos ou não, concordemos ou não, pois certo é que a vida atropela sempre, e continuará assim, ao que parece, eternamente.
Não há democracia plena, isto é, no sistema que representa a vontade de todos com prevalência da maioria, quando países são submetidos à fortes amarras econômicas, amarras estas, consequentes ao descaso de governantes que permitiram terceiros submeterem seus povos a sofrimentos incalculáveis. Decerto ainda teremos muito a avançar.
Política e religião
Talvez, salvo erro em juízo de valor, a principal diferença entre o espírito ateu ou materialista e o espírito religioso, esteja no objetivo materialista de um e na busca por algo superior de outro, no caso, Deus. O foco do materialismo é o ego como figura central, isto é o homem, ao lado do adquirir mais valia individual, entendendo-se aqui, material e pessoal. A questão fundamental entre um e outro é que ao longo da vida a busca por Deus não se esgota em si, pois em toda a história da civilização, não tivemos relato de termos encontrado o fim do caminho nesta questão, enquanto no caso materialista ou individual, sempre deparamos com seu esgotamento.
Religiões, detentoras ou não da verdade, bem ou mal intencionadas, sempre exibem um discurso ou ideia de que todos estão a procura de um ser universal superior, direcionando o pensamento dos fieis ao encontro futuro em sua busca pelo superior. Estados ou governos sempre estabelecem como principal relação a matéria ou o bem estar material, e como sabemos, esta é perecível levando ao esgotamento. Os seus membros esperam a qualquer momento que a ideia fundamental ou de matéria, encontrará um fim, e daí, a necessidade em mudar seu enfoque pois aquilo que temporariamente exibem, se esgota; talvez seja esta a principal diferença entre a religião e o estado, isto é, na forma em encontrar a felicidade e o bem estar. Com um ser superior até aqui inalcançável, a religião parece inesgotável no princípio, ficando seu discurso mutável com o tempo. Não se trata aqui em considerar se o estado atinge ou não o bem estar do povo ou se a religião atinge ou não a redenção dos crentes ou o contato com o divino.
Haveremos de concordar que a intensidade das relações entre religião, fé e estado, determinará o equilibrio da sociedade em questão, entenda-se como estado, suas funções, pensamentos ou ideologias, englobando ideologias ou dogmas como o ‘modus operandi’ ou instrumentalização para o fim. Tudo na verdade pode ser resumido como a forma com que cada um defenda aquilo que considera verdade, ou o melhor meio em atingir o bem comum, ou o progresso coletivo.
Tudo isto é dito, pois o Egito país de religião predominantemente muçulmana e em fase de afirmação democrática, nos apresenta dentre as várias correntes de pensamento, Yasser Burhami, ou o lider da Sociedade de Chamamento Salafista (SCS) com forte aceitação social nas recentes eleições e conhecida por seu ultraconservadorismo, conseguindo 34 cadeiras no parlamento que redigirá a nova constituição e declarando o seguinte: “Queremos uma democracia, mas uma que seja condicionada pelas leis de Deus. Governar sem as leis de Deus é próprio dos infiéis”, disse. Isto despertou certa desconfiança em relação a dose ou intensidade nas relações entre religião, fé e estado. Na verdade, na formação da nova constituição deste país do norte africano teremos que considerar haverem 78 lugares na Assembléia para a Aliança Democrática da Irmandade Muçulmana. O que se espera, é que consequente a democracia como principal responsável pela organização e liberação de correntes de pensamento diferentes da oficial, a batalha entre elas seja travada no campo das ideias obedecendo a vontade da maioria pelo voto livre e respeitando o direito da minoria. Sabemos que a democracia não é só a vontade da maioria ou a ditadura do voto majoritário, mas o direito da minoria ter um papel de influência, em menor grau é verdade, mas também influir, visando o máximo de abrangência da vontade de todos. Eis a questão.
Essência
Neste contexto de sociedade, estão a guerra, o território, a comunicação, o medo e a economia que deixaram de ser o que eram, conforme nos explica, dizendo que a “distribuição do poder é mais volátil, a determinação das causas e de responsabilidades é mais completa, os interlocutores são instáveis, as presenças são virtuais e os inimigos difusos”. Os Estados perdem as competências tradicionais a nível econômico, onde multinacionais operam sob a égide de um mercado global e não tanto dentro de um Estado. O detalhe aqui é o caso do País Basco, por exemplo, que estabelece relações com o exterior sem a ingerência do governo central da Espanha. No caso do cidadão, explica que “tem que estar um pouco para além de si próprio e do seu espaço nacional” deixando de lado parte da nacionalidade e adquirindo uma cidadania mais abrangente.
Quanto aos políticos, Innerarity declara que “a celebridade é mais importante que a competência”, que para entreter o público, acertam discussões visando preservar a boa imagem que se torna esssencial. A conclusão da exposição de Daniel é que apesar da invisibilidade, incerteza e confusão do mundo, este mostra-se fecundo em oportunidades a serem aproveitadas visando sua melhoria.
Dentro desta ideia de Innerarity, Vint Clerf considerado um dos pais da internet por ter participado da criação dos protocolos TCP|IP, nos mostra que há uma nuance a ser observada em relação àquilo que ajudou a criar, isto é, a Internet. Nos alerta sobre uma leve confusão que se estabelece diante da importância a ser dada ao instrumento fruto de sua criação e que o mundo recebeu com grande benevolência, afirmando que o acesso a web não pode ser considerado como um dos direitos do homem ou um direito fundamental. Deve ser sim, um instrumento visando concretizar alguns desses direitos quando fala que: “A tecnologia é uma forma de aceder aos direitos, mas não é ela própria um direito”; continua seu raciocínio dizendo que “A base para algo ser considerado um Direito Humano é bastante elevada. De forma simplista devem estar nesta lista coisas essenciais a uma vida saudável e com significado, como a liberdade de consciência. É um erro colocar uma determinada tecnologia nessa categoria, até porque ao longo dos anos temos valorizado coisas erradas”.
Tal qual na “Sociedade Invisível” de Daniel Innerarity, a forma intensa como tecnologias ou nuances do mundo atual nos apresentam, podem levar a uma confusão de valores e pesos equivocados em nossas opiniões, muitas vezes, confusão esta, já vista anteriormente com certa frequência. Mudar é ajustar corretamente nossa ótica sobre a vida; termino com Antoine de Saint Exupéry: “O essencial é invisível aos olhos”.
Olhar, pensar e entendimento
A geometria fractal é uma nova forma de geometria que lida com o infinitamente pequeno, cujas figuras mostram que cada pedaço é semelhante ao todo. Podemos ainda dizer que são objetos com auto-semelhança e complexidade infinitas, possuindo cópias aproximadas de si mesmo no seu interior.
A palavra fractal surgiu do latim fractus que significa irregular ou quebrado, podendo ser encontrado na natureza em estruturas vegetais ou animais ou mesmo produzidas artificialmente através de algorítimos matemáticos. São repetitivos, aparecendo sempre de forma diferente, e por serem divididos em partes, cada uma é semelhante ao objeto original dizendo-se auto similares independendo de escala; suas formas são igualmente complexas no detalhe e no global. Os fractais são uma evolução da geometria euclidiana e repesentam certos eventos do universo retratando formas e fenômenos da natureza conhecidos no início como “monstros” sem grande valor científico. Adquiriram status e dignidade matemática como disse seu criador Benoît Mandelbrot: “a geometria dos fractais não é apenas um capítulo da matemática, mas uma forma de ajudar os homens a verem o mesmo velho mundo de forma diferente” sendo considerada a geometria da Teoria do Caos.
Uma analogia interessante para a ideia de fractal consiste em tomarrmos uma célula da pele e ao examinarmos no microscópio veremos todas as suas características, e com mais cuidado, veremos a cor dos olhos, se o cabelo é louro ou preto, se enrolado ou estirado. Veremos as características de nosso avô que não se manifestaram em nós, e que manifestar-se-ão provavelmente em nosso neto; concluindo: uma célula tem nossa história, a história dos nossos ascendentes e descendentes, sendo características fractais extensão e permeabilidade infinita dos limites e autosimilaridade de formas e caracteres. Com a ideia fractal, as coisas deixam de ser vistas sob forma quantitativa adquirindo um olhar qualitativo.
Sem dúvida o pensamento evolui de forma mais rápida e eficiente no mundo atual do que no passado, não só consequente ao avanço tecnológico mas a abertura mental do ser pela maior liberdade e consciência. Certamente a base do pensamento principalmente ocidental se assenta no ponto de vista cartesiano do mundo, da sociedade e até mesmo dos sentimentos humanos, que podem ser aliviados, ou melhor compreeendidos quem sabe, pelo pensar através da compreensão do Caos de Lorentz, evoluindo e associando de uma visão euclideana para uma visão fractal das coisas, pessoas, sentimentos e do mundo em seu todo.
Parece que caminhamos no sentido de nos libertar de um entendimento mecânico newtoniano para um entendimento baseado na incerteza fisica quântica, e aí sim, nos sentirmos melhor e mais em linha com o mundo que se apresenta.
Tempo, dores e mudança
O tempo cura as dores e as querelas porque nós mudamos. Não somos os mesmos; nem o ofendido nem o ofensor são as mesmas pessoas. É como um povo que tivéssemos irritado, e que reencontrássemos duas gerações depois. Seriam ainda Franceses, mas não os mesmos Franceses.
Se sonharmos todas as noites a mesma coisa, ela irá afetar-nos tanto como os objetos que vemos todos os dias. E se um artesão tivesse a certeza de poder sonhar todas as noites, durante doze horas, que era Rei, creio que seria tão feliz como um Rei que sonhasse doze horas, todos os dias, que era um artesão.
Blaise Pascal em Pensées, Fragmento 662
Mesmo assim
Não julgo que as culturas tenham tentado, sistemática ou metodicamente, diferenciar-se umas das outras. A verdade é que durante centenas de milhares de anos a Humanidade não era numerosa na terra e os pequenos grupos existentes viviam isolados, de modo que nada espanta que cada um tenha desenvolvido as suas próprias características, tornando-se diferentes uns dos outros. Mas isso não era uma finalidade sentida pelos grupos. Foi apenas o mero resultado das condições que prevaleceram durante um período bastante dilatado.
Hoje em dia estamos ameaçados pela perspectiva de sermos apenas consumidores, indivíduos capazes de consumir seja o que for que venha de qualquer ponto do mundo e de qualquer cultura, mas desprovidos de qualquer grau de originalidade.
Claude Lévi-Strauss em Mito e Significado
O Olhar
“Se estes nova-iorquinos capazes e abastados tivessem saído dos divãs dos analistas, deixado de pensar em seus próprios problemas e feito qualquer coisa quanto aos verdadeiros problemas enfrentados por pessoas menos afortunadas em Bangladesh ou na Etiópia – ou mesmo em Manhattan, alguns metros mais adiante -, ter-se-iam esquecido dos seus próprios problemas e talvez tivessem tornado também o mundo num local melhor. “
Peter Singer em Como havemos de viver? – A ética numa época de individualismo
Saídas
“As pessoas devem sempre elevar-se para além das circunstâncias, ou então afundam-se, seja na droga, no álcool ou em seitas alucinadas. Quanto mais penosa, e como que desumanizada, se torna a situação, mais procuram saídas deste gênero.”
Marguerite Yourcenar em De olhos abertos
Distâncias
Em grande parte do mundo em vias de desenvolvimento, os níveis de produção e crescimento econômico registados durante o último século não acompanharam a taxa de crescimento da população, enquanto o nível de desenvolvimento econômico nos países industrializados a ultrapassou de longe. Estas tendências contrárias conduziram a uma acentuada separação entre os países mais ricos e os mais pobres do mundo. A distância entre os países mais ricos e os países mais pobres traduzia-se em 1820 na proporção de 3 para 1, de 11 para 1 em 1913, de 35 para 1 em 1950 e de 72 para 1 em 1992. Durante o último século, o rendimento per capita no segmento mais rico da população mundial quase sextuplicou, enquanto no segmento mais pobre o aumento não chegou a triplicar.
A globalização parece exacerbar esta tendência, ao concentrar ainda mais o rendimento, a riqueza e os recursos num pequeno número de países.
Anthony Giddens em Sociologia
Arte e magia
Apenas num único campo da nossa civilização foi mantida a onipotência de pensamentos e esse campo é o da arte. Acontece que na arte um homem consumido por desejos efetua algo que se assemelha à realização desses desejos e fá-lo com um sentido lúdico que produz efeitos emocionais – graças à ilusão artística – como se fosse algo real. As pessoas falam com justiça da ‘magia da arte’ e comparam os artistas com mágicos. Mas a comparação talvez seja mais significativa do que pretende ser. Não pode haver dúvida de que a arte não começou como arte por amor à arte. Ela funcionou originalmente ao serviço de impulsos que estão hoje, em sua maior parte, extintos. E entre eles, podemos suspeitar da presença de muitos instintos mágicos.
Freud em Totem e tabu